Capítulo 58 — “Lázaro, sai para fora”
Este capítulo é baseado em … João 11:1-44.
Na jornada para Betânia, Jesus, segundo o Seu costume, socorreu os enfermos e necessitados. Ao chegar à cidade, mandou às irmãs um mensageiro com as novas de Sua chegada. Cristo não entrou imediatamente em casa, mas ficou num lugar retirado, próximo ao caminho. A grande demonstração que os judeus costumavam fazer por ocasião da morte de parentes e amigos, não se coadunava com o espírito de Cristo. Ouviu os sons das lamentações dos pranteadores assalariados, e não desejava encontrar-Se com as irmãs nessa cena de confusão. Entre os pranteadores amigos, achavam-se parentes da família, alguns dos quais ocupavam posições de responsabilidade em Jerusalém. Encontravam-se entre eles os mais rancorosos inimigos de Cristo. Este lhes conhecia os desígnios, e daí não Se deu imediatamente a conhecer.
A mensagem foi transmitida a Marta tão discretamente, que outros no quarto não a ouviram. Absorta em seu pesar, Maria não escutou as palavras. Erguendo-se de pronto, Marta saiu ao encontro do Senhor, mas, pensando que ela fora ao sepulcro de Lázaro, Maria deixou-se ficar em silêncio com a sua mágoa, sem fazer nenhum rumor.
Marta apressou-se em ir ter com Jesus, o coração agitado por desencontradas emoções. Em Seu expressivo rosto, leu ela a mesma ternura e amor que nEle sempre vira. Sua confiança nEle permaneceu intata, mas lembrou-se de seu bem-amado irmão, a quem também Jesus amara. Num misto de desgosto nascente, por Cristo não ter vindo antes, e de esperança de que ainda agora faria qualquer coisa para as confortar, exclamou: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!” João 11:21. Repetidas vezes, por entre o tumulto dos pranteadores, haviam as irmãs feito essa exclamação.
Com humana e divina piedade, contemplou Jesus seu dolorido e fatigado rosto. Marta não mostrava desejos de narrar o acontecido; tudo se exprimiu nas patéticas palavras: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!” Fitando o amorável semblante, acrescentou: “Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus To concederá”. João 11:21, 22.
Jesus lhe animou a fé, dizendo: “Teu irmão há de ressuscitar”. João 11:23. Sua resposta não visava a inspirar a expectativa de uma mudança imediata. Conduziu os pensamentos de Marta para além da restauração presente de seu irmão, fixando-os na ressurreição dos justos. Assim fez para que visse, na ressurreição de Lázaro, o penhor da de todos os justos mortos e a certeza de que se realizaria pelo poder do Salvador.
Marta respondeu: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia”. João 11:24. Ainda procurando dar a verdadeira direção à sua fé, Jesus declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida.” Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada. “Quem tem o Filho tem a vida”. 1 João 5:12. A divindade de Cristo é a certeza de vida eterna para o crente. “Quem crê em Mim”, disse Jesus, “ainda que esteja morto viverá; e todo aquele que vive, e crê em Mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” João 11:25, 26. Cristo olha aqui ao tempo de Sua segunda vinda. Então os justos mortos ressuscitarão incorruptíveis, e os vivos serão trasladados para o Céu, sem ver a morte. O milagre que Cristo estava prestes a realizar, em ressuscitar a Lázaro dos mortos, representaria a ressurreição de todos os justos mortos. Por Suas palavras e obras, declarou-Se o Autor da ressurreição. Aquele que estava, Ele próprio, prestes a morrer na cruz, retinha as chaves da morte, vencedor do sepulcro, e afirmou Seu direito e poder de dar vida eterna.
Às palavras do Salvador: “Crês tu?” Marta respondeu: “Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo”. João 11:27. Ela não compreendia em toda a sua significação as palavras proferidas por Cristo, mas confessou sua fé na divindade dEle, e sua confiança em que Ele era capaz de efetuar qualquer coisa que Lhe aprouvesse.
“E, dito isto, partiu e chamou em segredo a Maria, sua irmã, dizendo: O Mestre está cá, e chama-te”. João 11:28. Ela comunicou sua mensagem o mais reservadamente possível; pois os sacerdotes e principais estavam preparados para prender Jesus quando se oferecesse oportunidade. O clamor dos pranteadores impediu que suas palavras fossem ouvidas.
Ao receber a comunicação, Maria ergueu-se apressadamente, e com expressão ansiosa, deixou a sala. Julgando que ela fora à sepultura para chorar, os pranteadores seguiram-na. Ao chegar ao local em que Jesus a esperava, ajoelhou-se-Lhe aos pés, e disse com lábios trêmulos: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido”. João 11:21. Eram-lhe penosos os gritos dos pranteadores; pois ela desejava trocar algumas tranquilas palavras só com Jesus. Mas conhecia a inveja e o ciúme que alguns dos presentes contra Ele nutriam no coração, e absteve-se de exprimir-Lhe plenamente a sua mágoa.
“Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-Se muito em espírito, e perturbou-Se”. João 11:33. Lia o coração de todos os que ali estavam reunidos. Viu que da parte de muitos, não passava de simulação o que apresentavam como demonstração de pesar. Sabia que alguns no grupo, manifestando agora hipócrita tristeza, estariam sem muita demora, planejando a morte, não somente do poderoso Operador de Milagres, mas daquele que estava para ser ressuscitado. Cristo lhes poderia haver arrancado o manto de fingido pesar. Conteve, porém, Sua justa indignação. As palavras que poderia, com toda verdade, haver proferido, calou-as por amor do querido ser a Seus pés ajoelhado em dor, e que realmente nEle acreditava.
“Onde o pusestes?” perguntou. “Disseram-Lhe: Senhor, vem e vê”. João 11:34. Juntos, dirigiram-se para o sepulcro. Foi uma cena dolorosa. Lázaro fora muito amado, e as irmãs por ele choravam, despedaçado o coração, ao passo que os que haviam sido amigos seus, misturavam as lágrimas com as das desoladas irmãs. Em face dessa aflição humana e de que os amigos consternados pranteavam o morto, enquanto o Salvador do mundo ali Se achava — “Jesus chorou”. João 11:35. Se bem que fosse o Filho de Deus, revestira-Se, no entanto, da natureza humana e comoveu-Se com a humana dor. Seu terno, compassivo coração está sempre pronto a compadecer-se perante o sofrimento. Chora com os que choram, e alegra-Se com os que se alegram.
Não foi, porém, simplesmente pela simpatia humana para com Maria e Marta, que Jesus chorou. Havia em Suas lágrimas uma dor tão acima da simples mágoa humana, como o Céu se acha acima da Terra. Cristo não chorou por Lázaro; pois estava para o chamar do sepulcro. Chorou porque muitos dos que ora pranteavam a Lázaro haviam de em breve tramar a morte dAquele que era a ressurreição e a vida. Quão incapazes se achavam, no entanto, os incrédulos judeus de interpretar devidamente Suas lágrimas! Alguns, que não conseguiam enxergar senão as circunstâncias exteriores da cena que perante Ele estava, como causa de Sua tristeza, disseram baixinho: “Vede como o amava!” Outros, procurando lançar a semente da incredulidade no coração dos presentes, disseram, irônicos: “Não podia Ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?” João 11:36, 37. Se estava no poder de Cristo salvar a Lázaro, por que, então, o deixou morrer?
Com profética visão, percebeu Cristo a inimizade dos fariseus e dos saduceus. Sabia que Lhe estavam premeditando a morte. Não ignorava que alguns dos que tão cheios de aparente simpatia se mostravam, em breve fechariam contra si mesmos a porta da esperança e os portais da cidade de Deus. Em Sua humilhação e crucifixão estava para verificar-se uma cena que daria em resultado a destruição de Jerusalém, e então ninguém lamentaria os mortos. O juízo que estava para cair sobre Jerusalém foi perante Ele claramente delineado. Contemplou Jerusalém cercada pelas legiões romanas. Viu que muitos dos que agora choravam por Lázaro morreriam no cerco da cidade, e não haveria esperança em sua morte.
Não foi somente pela cena que se desenrolava a Seus olhos, que Cristo chorou. Pesava sobre Ele a dor dos séculos. Viu os terríveis efeitos da transgressão da lei divina. Viu que, na história do mundo, a começar com a morte de Abel, fora incessante o conflito entre o bem e o mal. Lançando o olhar através dos séculos por vir, viu o sofrimento e a dor, as lágrimas e a morte que caberiam em sorte aos homens. Seu coração pungiu-se pelas penas da família humana de todos os tempos e em todas as terras. Pesavam-Lhe fortemente sobre a alma as misérias da pecadora raça, e rompeu-se-Lhe a fonte das lágrimas no anelo de lhes aliviar todas as aflições.
“Jesus pois, movendo-Se outra vez muito em Si mesmo, veio ao sepulcro.” Lázaro fora depositado numa cova na rocha, sendo colocado na porta um bloco de pedra. “Tirai a pedra” (João 11:38, 39), disse Cristo. Julgando que desejasse apenas ver o morto, Marta objetou, dizendo que o corpo fora enterrado havia quatro dias, tendo já começado o processo de decomposição. Essa afirmativa, feita antes de Lázaro ressuscitar, não deixou margem a que os inimigos de Cristo dissessem que houvera fraude. Anteriormente, haviam os fariseus espalhado falsas afirmações em torno das mais maravilhosas manifestações do poder de Deus. Ao ressuscitar Cristo a filha de Jairo, dissera: “A menina não está morta, mas dorme”. Marcos 5:39. Como houvesse estado doente apenas pouco tempo, e fora ressuscitada imediatamente depois da morte, os fariseus afirmaram que a criança não estava morta; que o próprio Cristo dissera que ela dormia. Procuraram fazer crer que Jesus não podia curar moléstias, que Seus milagres não passavam de mistificação. Nesse caso, porém, ninguém podia negar que Lázaro estivesse morto.
Quando o Senhor está para realizar uma obra, Satanás instiga alguém a fazer objeções. “Tirai a pedra”, disse Cristo. Tanto quanto possível, preparai o caminho para Minha obra. Manifestou-se, porém, a natureza positiva e pretensiosa de Marta. Não desejava que o corpo em decomposição fosse apresentado aos olhares dos outros. O coração humano é tardio em compreender as palavras de Cristo, e a fé de Marta não apreendera o verdadeiro sentido de Sua promessa.
Cristo reprovou a Marta, mas Suas palavras foram proferidas com a máxima brandura. “Não te hei dito que, se creres verás a glória de Deus?” João 11:40. Por que duvidas de Meu poder? Por que arrazoas em contradição às Minhas ordens? Tens a Minha palavra. Se creres, verás a glória de Deus. Impossibilidades naturais não podem impedir a obra do Onipotente. Ceticismo e incredulidade não são humildade. A crença implícita na palavra de Cristo, eis a verdadeira humildade, a verdadeira entrega de si mesmo.
“Tirai a pedra”. João 11:39. Cristo podia ter ordenado à pedra que se deslocasse por si mesma, e ela Lhe teria obedecido à voz. Poderia ter mandado aos anjos que se Lhe achavam ao lado, que fizessem isso. Ao Seu mando, mãos invisíveis teriam removido a pedra. Mas ela devia ser retirada por mãos humanas. Assim queria Cristo mostrar que a humanidade tem de cooperar com a divindade. O que o poder humano pode fazer, o divino não é solicitado a realizar. Deus não dispensa o auxílio humano. Fortalece-o, cooperando com ele, ao servir-se das faculdades e aptidões que lhe foram dadas.
A ordem é obedecida. Retiram a pedra. Faz-se tudo pública e propositadamente. Dá-se a todos a oportunidade de ver que nenhuma fraude é praticada. Ali jaz o corpo de Lázaro no sepulcro da rocha, no frio e na mudez da morte. Silenciam os lamentos dos pranteadores. Surpreso, em expectação, reúne-se o grupo em torno do sepulcro, esperando o que se vai seguir.
Cristo, sereno, Se acha de pé ante a tumba. Paira sobre todos os presentes uma santa solenidade. Cristo Se aproxima do sepulcro. Erguendo os olhos ao Céu, diz: “Pai, graças Te dou por Me haveres ouvido”. João 11:41. Não muito tempo antes disso, os inimigos de Jesus O haviam acusado de blasfêmia, pegando em pedras para Lhe atirar por afirmar Ele ser o Filho de Deus. Acusavam-nO de operar milagres pelo poder de Satanás. Mas aqui Cristo chama a Deus Seu Pai, e com perfeita confiança, declara ser o Filho de Deus.
Em tudo quanto fazia, Cristo cooperava com o Pai. Tinha sempre o cuidado de tornar claro que não agia independentemente; era pela fé e a oração que Ele realizava Seus milagres. Cristo desejava que todos soubessem Suas relações para com o Pai. “Pai”, disse, “graças Te dou, por Me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas Eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que Tu Me enviaste”. João 11:41, 42. Ali aos discípulos e ao povo devia ser proporcionada a mais convincente prova com respeito à relação existente entre Cristo e Deus. Devia-lhes ser mostrado que a afirmação de Cristo não era um engano.
“E tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora”. João 11:43. Sua voz, clara e penetrante, soa aos ouvidos do morto. Ao falar, a divindade irrompe através da humanidade. Em Seu rosto, iluminado pela glória de Deus, vê o povo a certeza de Seu poder. Todos os olhos se acham fixos na entrada do sepulcro. Todos os ouvidos, atentos ao mais leve som. Com intenso e doloroso interesse, aguardam todos a prova da divindade de Cristo, o testemunho que há de comprovar Sua declaração de ser o Filho de Deus, ou para sempre extinguir a esperança.
Há um ruído na silenciosa tumba, e o que estivera morto aparece à entrada da mesma. Seus movimentos são impedidos pela mortalha em que está envolto, e Cristo diz à estupefata assistência: “Desatai-o, e deixai-o ir.” Mais uma vez lhes é mostrado que o obreiro humano deve cooperar com Deus. A humanidade deve trabalhar pela humanidade. Lázaro é desligado e aparece ao grupo, não como uma pessoa emagrecida pela doença, membros débeis e vacilantes, mas como um homem na primavera da vida, no vigor de nobre varonilidade. Brilham-lhe os olhos de inteligência e de amor para com o Salvador. Lança-se em adoração aos pés de Jesus.
Os espectadores ficam, a princípio, mudos de espanto. Segue-se depois uma inexprimível cena de regozijo e louvor. As irmãs recebem como um dom de Deus o irmão que lhes é devolvido, e, com lágrimas de júbilo, exprimem entrecortadamente sua gratidão ao Salvador. Mas, enquanto o irmão, as irmãs e os amigos se regozijam nessa reunião, Jesus Se retira da cena. Ao procurarem o Doador da vida, já não O encontram.
Capítulo 63 — “Eis que o teu rei virá”
Este capítulo é baseado em Mateus 21:1-11; Marcos 11:1-10; Lucas 19:29-44; João 12:12-19.
Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9.
Quinhentos anos antes do nascimento de Cristo, o profeta Zacarias assim predisse a vinda do Rei de Israel. Essa profecia devia então cumprir-se. Aquele que por tanto tempo recusara honras reais, vem agora a Jerusalém como o prometido herdeiro do trono de Davi.
Foi no primeiro dia da semana que Jesus fez Sua entrada triunfal em Jerusalém. Multidões que haviam afluído a vê-Lo em Betânia, acompanharam-nO, ansiosos de Lhe testemunhar a recepção. Muita gente se achava a caminho de Jerusalém para celebrar a páscoa, e uniu-se à multidão que acompanhava Jesus. Toda a natureza parecia regozijar-se. As árvores estavam verdejantes, e as flores espargiam pelo ar um delicado aroma. O povo achava-se animado de nova vida e alegria. Surgia mais uma vez a esperança do novo reino.
Determinado entrar a cavalo em Jerusalém, Jesus mandara dois dos discípulos buscarem para Ele uma jumenta e seu asninho. Por ocasião de Seu nascimento, o Salvador dependeu da hospitalidade de estranhos. A manjedoura em que esteve, foi um lugar de descanso emprestado. Agora, se bem que Seu seja todo o gado sobre milhares de colinas, depende da bondade de um estranho quanto a um animal em que entrar em Jerusalém como Rei. Novamente, porém, se manifesta Sua divindade, mesmo nas mínimas instruções dadas aos discípulos para o desempenho desse mandado. Como predissera, foi prontamente satisfeito o pedido: “O Senhor precisa deles”. Mateus 21:3. Jesus preferiu servir-Se do asninho em que nenhum homem jamais montara. Com alegre entusiasmo, estenderam os discípulos suas vestes sobre o animal e sobre ele sentaram o Mestre. Até então Jesus sempre viajara a pé, e a princípio os discípulos se admiraram de que agora preferisse montar. Mas a esperança lhes raiou no coração ao jubiloso pensamento de que Ele estava para entrar na capital, proclamar-Se Rei, e firmar Seu poder real. Ao irem cumprir as ordens recebidas, comunicaram sua alegre esperança aos amigos de Jesus, e a agitação espalhou-se por toda parte, fazendo com que subisse de ponto a expectação do povo.
Cristo estava seguindo o costume judaico nas entradas reais. O animal que montava era o mesmo cavalgado pelos reis de Israel, e a profecia predissera que assim viria o Messias a Seu reino. Logo que Ele Se sentou no jumentinho, um grande grito de triunfo atroou nos ares. A multidão aclamou-O como o Messias, seu Rei. Jesus aceitou agora a homenagem que nunca antes permitira, e os discípulos consideraram isso como prova de que suas alegres esperanças se realizariam, vendo-O estabelecido no trono. O povo ficou convencido de aproximar-se a hora de sua emancipação. Em pensamento viram os exércitos romanos expulsos de Jerusalém, e Israel mais uma vez nação independente. Todos estavam contentes e despertos; disputavam entre si o render-Lhe honras. Não podiam exibir pompas e esplendores, mas prestaram-Lhe o culto de corações felizes. Não lhes era possível presenteá-Lo com dádivas custosas, mas estendiam as vestes exteriores à guisa de tapete em Seu caminho, e também espalharam ramos de oliveira e palmas por onde devia passar. Não podiam abrir o cortejo triunfal com bandeiras reais, mas cortavam ramos de palmeira, os emblemas de vitória da natureza, e os agitavam no ar com altas aclamações e hosanas.
À medida que avançavam, aumentava sempre o povo com a reunião dos que tinham ouvido da vinda de Jesus e se apressavam a tomar parte no acompanhamento. Os espectadores continuamente se misturavam à turba, perguntando: Quem é Este? Que quer dizer toda essa agitação? Todos tinham ouvido falar de Jesus, e esperavam que fosse a Jerusalém; mas sabiam que até então Ele Se esquivara a qualquer esforço para O colocar no trono e ficavam muito surpreendidos de saber que este era Ele. Cogitavam que teria operado essa grande mudança nAquele que dissera que Seu reino não era deste mundo.
Suas perguntas são abafadas por um grito de triunfo. Este é aqui e ali repetido pela turba despertada, acompanhado pelos mais distantes, e ecoado pelos montes e vales. E depois acresce a comitiva pelas massas vindas de Jerusalém. Das multidões reunidas para assistir à páscoa, milhares saem ao encontro de Jesus. Saúdam-nO com o agitar das palmas e cânticos sagrados. Os sacerdotes fazem soar, no templo, a trombeta para o serviço da tarde, mas poucos atendem, e os príncipes, alarmados, dizem entre si: “Eis que toda a gente vai após Ele”. João 12:19.
Nunca antes, em Sua vida terrestre, permitira Jesus essa demonstração. Previa claramente o resultado. Levá-Lo-ia à cruz. Era, porém, Seu desígnio apresentar-Se assim publicamente como Redentor. Desejava chamar a atenção para o sacrifício que Lhe devia coroar a missão para com o mundo caído. Enquanto o povo estava reunido em Jerusalém para a celebração da páscoa, Ele, o Cordeiro de Deus, representado pelos sacrifícios simbólicos, voluntariamente Se pôs de parte como oblação. Seria necessário que Sua igreja, em todos os sucessivos séculos, fizesse de Sua morte pelos pecados do mundo assunto de profunda reflexão e estudo. Todos os fatos com ela relacionados deviam verificar-se de maneira a ficarem acima de qualquer dúvida. Era preciso, pois, que os olhos de todo o povo fossem então dirigidos para Ele; os acontecimentos que precederam Seu grande sacrifício deviam ser de molde a chamar a atenção para o próprio sacrifício. Depois de uma demonstração como a que acompanhou Sua entrada em Jerusalém, todos os olhos Lhe seguiram a rápida marcha para a cena final.
Os acontecimentos relacionados com essa entrada triunfal constituiriam assunto de todas as bocas, e tornariam Jesus objeto das cogitações de todos os espíritos. Depois de Sua crucifixão, muitos recordariam estes fatos relacionados com Seu julgamento e morte. Seriam levados a pesquisar os escritos dos profetas e convencer-se-iam de que Jesus era o Messias; e multiplicar-se-iam em todas as terras os conversos à fé.
Nessa triunfante cena de Sua vida terrestre, o Salvador poderia haver aparecido escoltado por anjos celestiais e anunciado pela trombeta de Deus; essa demonstração, no entanto, teria sido contrária ao desígnio de Sua missão, contrária à lei que Lhe governara a vida. Permaneceu fiel à sorte humilde que aceitara. Devia levar o fardo da humanidade até haver dado a vida pela vida do mundo.
Esse dia, que se afigurava aos discípulos o mais glorioso de sua vida, ter-se-ia toldado de sombrias nuvens, soubessem eles que a cena de regozijo não era senão um prelúdio aos sofrimentos e à morte do Mestre. Embora Ele lhes houvesse repetidas vezes falado do sacrifício que certamente O aguardava, no alegre triunfo presente esqueceram Suas dolorosas palavras, e anteciparam-Lhe o próspero reino no trono de Davi.
Novos acréscimos se iam fazendo continuamente à procissão, e com poucas exceções, todos quantos a ela se juntavam eram possuídos pelo entusiasmo do momento, avolumando os hosanas que ecoavam de monte em monte, de vale em vale. Subiam continuamente as aclamações: “Hosana ao Filho de Davi; bendito O que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!” Marcos 11:9, 10.
Nunca antes vira o mundo um cortejo triunfal como esse. Não se assemelhava ao dos famosos conquistadores da Terra. Não fazia parte daquela cena nenhuma comitiva de lamentosos cativos, como troféus da bravura real. Achavam-se em torno do Salvador os gloriosos troféus de Seus serviços de amor pelo homem caído. Estavam os cativos a quem resgatara do poder de Satanás, louvando a Deus por sua libertação. Os cegos a quem restituíra a vista, abriam a marcha. Os mudos cuja língua soltara, entoavam os mais altos hosanas. Saltavam de alegria os coxos por Ele curados, sendo os mais ativos em quebrar os ramos de palmeira e agitá-los diante do Salvador. As viúvas e os órfãos exaltavam o nome de Jesus pelos atos de misericórdia que lhes dispensara. Os leprosos a quem purificara, estendiam na estrada as vestes incontaminadas, ao mesmo tempo que O saudavam como Rei da glória. Aqueles a quem Sua voz despertara do sono da morte, tomavam parte no cortejo. Lázaro, cujo corpo provara a corrupção no sepulcro, mas que então se regozijava na força da varonilidade gloriosa, conduzia o animal que Jesus montava.
Muitos fariseus testemunhavam a cena e, ardendo de inveja e malignidade, buscavam desviar a corrente dos sentimentos populares. Com toda a sua autoridade tentaram impor silêncio ao povo; mas seus apelos e ameaças não faziam senão aumentar o entusiasmo. Temeram que essa multidão, na força de seu número, fizesse Jesus rei. Como último recurso, avançaram por entre a turba até onde estava o Salvador, e abordaram-nO com palavras de censura e ameaça: “Mestre, repreende os Teus discípulos”. Lucas 19:39. Declararam não serem lícitas tão ruidosas manifestações, nem permitidas pelas autoridades. Foram, porém, reduzidos ao silêncio pela réplica de Jesus: “Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão”. Lucas 19:40. Aquela cena de triunfo era designada pelo próprio Deus. Fora predita pelo profeta, e o homem era impotente para impedir os Seus desígnios. Houvesse o homem deixado de executar Seu plano, e Ele teria comunicado voz às inanimadas pedras, que saudariam Seu Filho com aclamações de louvor. Ao retirarem-se os mudos fariseus, foram proferidas por centenas de vozes as palavras de Zacarias: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e salvador, pobre, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9.
Capítulo 65 — O templo novamente purificado
Este capítulo é baseado em Mateus 21:12-16, 23-46; Marcos 11:15-19, 27-33; 12:1-12; Lucas 19:45-48; 20:1-19.
No princípio de Seu ministério, Cristo expulsara do templo os que o manchavam por seu profano tráfico; e Sua atitude severa e divina enchera de terror o coração dos astutos comerciantes. Ao fim de Sua missão, foi Ele outra vez ao templo e encontrou-o de novo profanado como antes. As condições eram ainda piores. O pátio do templo estava como um vasto curral de gado. Com os berros dos animais e o agudo tinir das moedas, misturava-se o som de iradas altercações entre os traficantes, e ouviam-se entre eles vozes de homens no sagrado ofício. Os dignitários do templo empenhavam-se, eles próprios, em comprar e vender, e trocar dinheiro. Tão completamente se achavam dominados pela cobiça de lucro que, aos olhos de Deus, não eram melhores que ladrões.
Pouco percebiam os sacerdotes e principais a solenidade da obra que lhes cumpria realizar. Em toda páscoa e festa dos tabernáculos, milhares de animais eram mortos, e seu sangue recolhido pelos sacerdotes e derramado sobre o altar. Os judeus familiarizaram-se com a oferta de sangue e quase perderam de vista o fato de ser o pecado o que tornava necessário todo esse derramamento de sangue de animais. Não discerniam que isso prefigurava o sangue do querido Filho de Deus, que seria derramado pela vida do mundo, e que pela oferta de sacrifícios deviam os homens ser levados ao crucificado Redentor.
Jesus olhava as inocentes vítimas do sacrifício, e via como os judeus haviam tornado essas grandes convocações cenas de derramamento de sangue e de crueldade. Em lugar de humilde arrependimento pelo pecado, multiplicaram o sacrifício de animais, como se Deus pudesse ser honrado por um serviço destituído de coração. Os sacerdotes e principais endureceram a alma pelo egoísmo e a avareza. Os próprios símbolos que indicavam o Cordeiro de Deus, haviam eles transformado num meio de ganho. Assim, aos olhos do povo fora destruída, em grande parte, a santidade do serviço sacrifical. Despertou-se a indignação de Jesus; sabia que Seu sangue, tão próximo a ser vertido pelos pecados do mundo, seria tão pouco apreciado pelos sacerdotes e anciãos, como o dos animais, que derramavam incessantemente.
Contra tais práticas falara Cristo por meio dos profetas. Dissera Samuel: “Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à Palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor é do que a gordura de carneiros”. 1 Samuel 15:22. E Isaías, vendo em visão profética a apostasia dos judeus, a eles se dirigiu como príncipes de Sodoma e Gomorra: “Ouvi a Palavra do Senhor, príncipes de Sodoma; prestai ouvidos à lei do nosso Deus, vós, ó povo de Gomorra. De que Me serve a Mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e de gordura de animais nédios; e não folgo com o sangue dos bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecerdes diante de Mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis pisar os Meus átrios?” “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus olhos; cessai de fazer mal; aprendei a fazer bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão, tratai da causa das viúvas”. Isaías 1:10-12, 16, 17.
Aquele mesmo que dera essas profecias, repetia agora, pela última vez, a advertência. Em cumprimento da profecia, o povo proclamara Jesus rei de Israel. Ele lhes recebera as homenagens, e aceitara a posição de rei. Nesse caráter devia agir. Sabia que seriam nulos Seus esforços para reformar um sacerdócio corrompido; não obstante, essa obra precisava ser feita; tinha de ser dada a um povo incrédulo a prova de Sua divina missão.
Novamente o penetrante olhar de Jesus percorreu o profanado pátio do templo. Todos os olhares estavam voltados para Ele. Sacerdotes e principais, fariseus e gentios, olhavam com surpresa e respeito para Aquele que Se achava diante deles com a majestade do Rei do Céu. A divindade irrompeu da humanidade, revestindo Cristo de uma dignidade e glória que jamais manifestara. Os que se achavam mais próximos dEle afastaram-se o mais que lhes permitia a multidão. Não fosse a presença de alguns de Seus discípulos, e o Salvador Se encontraria como isolado. Todos os sons cessaram. Parecia insuportável o profundo silêncio. Cristo falou com um poder que dominou o povo como uma forte tempestade: “Está escrito: A Minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela covil de salteadores”. Lucas 19:46. Sua voz soou como trombeta através do templo. O desagrado de Sua fisionomia assemelhava-se a um fogo consumidor. Com autoridade, ordenou: “Tirai daqui estes.”
Três anos antes, os dirigentes do templo haviam-se envergonhado de sua fuga à ordem de Jesus. Sempre se admiraram depois, de seus temores e de sua obediência sem réplica a um simples, humilde homem. Julgaram ser impossível repetir-se a humilhante submissão. Ficaram, todavia, ainda mais aterrados agora que antes e mais apressados em obedecer-Lhe à ordem. Não houve ninguém que ousasse questionar-Lhe a autoridade. Sacerdotes e comerciantes fugiram-Lhe da presença, tangendo adiante o gado.
Ao saírem do templo, encontraram no caminho uma multidão que trazia os enfermos, indagando pelo grande Médico. As notícias dadas pelos que fugiam, fizeram com que alguns desses voltassem atrás. Temiam encontrar Alguém tão poderoso, cujo simples olhar afugentara de Sua presença os sacerdotes e principais. O maior número, porém, avançou por entre a multidão apressada, ansiosos de encontrar Aquele que era sua única esperança. Ao fugir do templo a multidão, muitos ficaram atrás. A esses se reuniram então os recém-vindos. Novamente o pátio do templo se encheu de doentes e moribundos, e mais uma vez, Jesus os socorreu.
Depois de algum tempo, os sacerdotes e líderes se aventuraram a voltar ao templo. Acalmado o pânico, sentiram-se presa de ansiedade quanto ao que iria Jesus fazer em seguida. Esperavam que tomasse o trono de Davi. Voltando silenciosamente ao templo, ouviram vozes de homens e mulheres e crianças louvando a Deus. Ao entrar, ficaram paralisados diante da maravilhosa cena. Viram os enfermos curados, os cegos restaurados à vista, os surdos ouvindo, e os coxos saltando de prazer. As crianças superavam os demais no regozijo. Jesus lhes curara as moléstias; enlaçara-as nos braços, recebera-lhes os beijos de reconhecido afeto, e algumas delas haviam adormecido em Seu peito, ao ensinar Ele a multidão. Agora, com alegres vozes, os pequenos Lhe entoavam o louvor. Repetiam os hosanas da véspera, e triunfalmente agitavam palmas diante do Salvador. O templo ecoava e reecoava às suas aclamações: “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Salmos 118:26. “Eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador!” Zacarias 9:9. “Hosana ao Filho de Davi!”
O som dessas felizes, irreprimidas vozes foi uma ofensa para os dirigentes do templo. Decidiram-se a fazer calar essas demonstrações. Disseram ao povo que a casa de Deus era profanada pelos pés das crianças e suas aclamações de júbilo. Verificando que suas palavras não causavam impressão no povo, voltaram-se os sacerdotes para Cristo: “Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?” Mateus 21:16. Predissera a profecia que Cristo seria proclamado rei, e essa palavra se devia cumprir. Os sacerdotes e principais de Israel recusaram anunciar Sua glória, e Deus moveu as crianças para Lhe servirem de testemunhas. Silenciassem as vozes infantis, e os próprios pilares do templo entoariam o louvor do Salvador.
Os fariseus ficaram inteiramente perplexos e desconcertados. Alguém que não podiam intimidar, achava-Se com a direção. Jesus tomara Sua posição de guarda do templo. Nunca antes assumira essa régia autoridade. Nunca antes haviam Suas palavras e ações possuído tão grande poder. Fizera maravilhosas obras por toda Jerusalém, mas nunca antes por maneira tão solene e impressiva. Em presença do povo que Lhe testemunhara as maravilhosas obras, os sacerdotes e principais não ousavam hostilizá-Lo abertamente. Conquanto zangados e confundidos por Sua resposta, não foram capazes de fazer qualquer coisa mais naquele dia.
Na manhã seguinte, o Sinédrio considerou novamente a atitude que devia tomar para com Jesus. Três anos antes, tinham pedido um sinal de Sua messianidade. Desde então realizara Ele poderosas obras por toda a Terra. Curara os enfermos, alimentara miraculosamente milhares de pessoas, caminhara sobre as ondas, e Sua palavra impusera calma ao revoltado mar. Repetidamente lera o coração dos homens como um livro aberto; expulsara demônios e ressuscitara mortos. Os principais tinham diante de si as provas de Sua messianidade. Decidiram então não pedir nenhum sinal de Sua autoridade, mas tirar dEle qualquer confissão ou declaração que O pudessem condenar.
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